welcome to the graveyard

when the rain stops.

Oh, I'm such a mess.

Vincent nunca teve medo da dor. Cresceu cercado por homens que ensinavam, mesmo em silêncio, que sentir demais era sinônimo de fraqueza. Thomás fazia isso muito bem. Nicholas, igualmente, embora de uma forma mais silenciosa, mais distante, como alguém que amava demais e entregava promessas vazias ao vento, o absoluto nada. Vincent aprendeu cedo a transformar tudo em espetáculo, o abandono, a raiva, o vazio no peito, os socos, o sangue. Se doesse, ele ria. Se quebrasse, levantava. Era simples assim.Talvez por isso ninguém tenha percebido o momento exato em que ele começou a desmoronar de verdade, tal qual uma peça de teatro em ruínas.Não foi no ringue.Não foi quando Nox esmagou suas costelas uma após a outra ou quando o punho acertou seu rosto com força suficiente para apagar parte da luz do mundo. Também não foi quando sentiu o próprio sangue enchendo a boca enquanto tentava continuar em pé por puro orgulho, como um animal ferido se recusando a morrer diante da matilha. Foi bem antes.

Even when the pain's gone, I can feel it haunting me, and it's gonna kill me.

Talvez no dia em que percebeu que, para Thomás, afeto nunca vinha limpo - sempre chegava disfarçado de cobrança, controle e alguma forma cruel de dívida.Ou quando Nicholas fechava os olhos pela primeira vez vendo o filho quebrar em múltiplos ossos em sua frente.Ou quando entendeu que, não importava quantas pessoas o cercassem, ainda existia algo profundamente solitário dentro dele, algo que nem Kyunggu conseguia alcançar completamente.Agora restava apenas o silêncio.O quarto branco do hospital respirava por ele através das máquinas. Tubos atravessavam sua garganta, os monitores apitavam num ritmo irritantemente constante e o corpo, antes tão cheio de movimento, permanecia imóvel sob os lençóis pesados. Havia pontos espalhados pelo rosto, hematomas escurecendo a pele que antes já havia se recuperado, costelas reconstruídas à força, um pulmão que insistia em falhar e um olho direito condenado a jamais enxergar o mundo da mesma maneira outra vez.E Vincent continuava sem acordar.Como se alguma parte dele tivesse decidido permanecer longe.Mas, por perto, ainda podia ouvir passos longos vindo do corredor de fora. Pesados, carregados com uma angústia ou talvez um desprezo. Não podia sentir exatamente o sentimento. Sabia bem que aqueles sapatos caros e barulhentos pertenciam ao único dono que não conseguia compreender o silêncio: Nicholas. O homem descobriu exatamente onde Vincent estava e quando estaria sozinho no quarto, dessa vez, sem depender do marido para procurar feito rato por sujeira.

Maybe I'm just kind of an animal, maybe everyone's right.

O quarto permanecia mergulhado naquele silêncio insuportável de hospital, quebrado apenas pelo som irritante dos aparelhos monitorando cada pequena insistência do corpo de Vincent em continuar vivo. Nicholas estava sentado ao lado da cama há tempo demais, os cotovelos apoiados nos joelhos, observando o filho imóvel sob os lençóis como se ainda tentasse aceitar que aquele amontoado de curativos, hematomas e tubos era realmente ele.Bobae sempre parecera impossível de destruir.Mesmo pequeno, quando voltava machucado depois de brigar na escola, existia algo quase arrogante na maneira como levantava de novo. Nicholas odiava aquilo. E amava também. Porque Vincent herdara exatamente a pior parte dos dois lados da família: orgulho demais para cair e raiva demais para parar.Mas, daquela vez ele caiu.O olhar de Nicholas desceu lentamente até o curativo cobrindo o olho direito do filho. A mandíbula travou por um instante. Não queria imaginar o momento em que Vincent acordasse e percebesse o que tinha perdido.— Você sempre faz isso. — A voz saiu baixa, cansada, depois de horas sem dizer nada. — Sempre me faz chegar quando já está destruído.Os aparelhos continuaram apitando no mesmo ritmo até os dedos de Vincent se moverem quase imperceptivelmente sobre o lençol.Nicholas levantou a cabeça na mesma hora.Os cílios dele tremeram devagar, pesados, e então os olhos finalmente abriram uma fresta. Desfocados. Perdidos. A dor veio antes da consciência, brutal, atravessando o peito, a cabeça, o rosto inteiro. Vincent tentou respirar fundo por reflexo e o tubo em sua garganta o fez se desesperar no mesmo instante.O monitor disparou. E Nicholas sumiu antes que pudesse ser visto.